Obsessão, Culpa e Espiritualidade em um Religioso com Comportamento Pedofílico

18 Maio 2008 – 8:30 am

A sexualidade é um meio; não um fim em si mesmo. Tem duas funções básicas que se complementam em nossa espécie. De um lado, tem uma função procriadora, algo profundamente radicado em nossa corporeidade [8] e que tem seus momentos evolutivos condicionados às normas e valores de cada cultura e grupo social, mas que são ditados por leis que decorrem da evolução da espécie humana. Ë nesta evolução de dezenas de milhares de anos que a sexualidade humana tem sua base neurofisiológica, que possui implicações decisivas para a totalidade do corpo, com seus afetos, emoções e necessidades básicas.

De outro lado, a sexualidade humana tem uma função propiciadora de contato interpessoal entre os seres humanos, com decorrência para a auto-percepção sexual de cada um/uma. São processos vivenciados já pelo bebê em seu relacionamento simbiótico com a mãe e o pai, no primeiro ambiente familiar. Mais tarde, acrescem as influências do meio cultural, do qual faz parte integrante e decisiva a religião.

Este complexo conjunto de fatores vai moldando as atitudes da criança ante sua corporeidade e com relação a tudo o que diz respeito à sexualidade sua e alheia. O que hoje chamamos de identidade de gênero, algo distinto da identidade de sexo, tem a ver com todos e com cada um destes muitos fatores e experiências mais afetivas que cognitivas. A vivência da sexualidade e o próprio funcionamento dos órgãos sexuais precisam ser considerados dentro deste processo lento, global e holístico, abrangendo o todo biológico, social, cognitivo e axiológico de cada ser humano. A criança, ao crescer e tomar consciência de si e da realidade, vai se constituindo como pessoa e estabelecendo a identidade sexual como algo inerente à sua personalidade. Sexo não é algo que o ser humano tem, mas algo que ele é, de forma própria e irredutível.

Todo o nosso corpo é erógeno e também são erógenas e eróticas nossas escolhas de vida, sejam elas concretas ou abstratas. Vocação ou escolha do celibato como maneira de se realizar enquanto pessoa podem ser profundamente eróticos quando ligados à vida e ao fazer comprometidos com um sentido e uma busca. Contudo podem também ser também profundamente alienantes e levar a um processo necrófilo (expressão de Erich Fromm), principalmente quando visam ocultar razões profundas geradas por distúrbios na comunicação da criança em formação com seus pais ou adultos significativos. Sendo a sexualidade um modo privilegiado de comunicação, sempre que rasurada, inibida ou desorientada na infância, será fonte de distúrbios nas fases posteriores da vida, incluindo uma má formação do caráter e condutas anti-sociais.

8 Cf. MORI, Geraldo L. de. Provocações para pensar uma teologia da corporeidade. In: Convergência, 2005, No. 386, p. 470-490 e PINTO, Ênio B. Orientação sexual na escola. São Paulo: Edições Gente, 1999.

Esse artigo foi retirado do texto : Obsessão, Culpa e Espiritualidade em um Religioso com Comportamento Pedofílico, da autora Eliana Massih.

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