Deus, fé e política

20 Maio 2008 – 11:20 am

Neste artigo, o diplomata Roberto Campos (já falecido) apresenta as suas impressões acerca da religiosidade do brasileiro. Faz críticas à ala progressista da Igreja Católica, e defende a tese de que os religiosos devem tratar apenas de assuntos religiosos. A seguir, o artigo escrito por ele, que na época era deputado, no ano de 1993:

A religiosidade brasileira é peculiar e define bem a natureza do país. Funciona a fogo brando. Somos o país do sujeito convencido de que é católico, sem a menor dúvida, mas só vai a Missa do Galo, mesmo assim levado pela mulher; não noção severa de pecado; escolhe dos Mandamentos o que quer ou não cumprir (sempre excluindo o sexto e o nono, evidentemente…); decide em que vai acreditar (sempre mais ou menos), e não sente grande compulsão de coerência interior.
(…)

Em nossa religião camarada, Deus é quase um membro da família. Um pai tolerante, muito ocupado com outras coisas, mas a quem se recorre num aperto. (…) Herdamos dos avôs portugueses uma religiosidade familiar, doce e superficial, que o carinhoso culto do Menino Jesus ilustra bem.

A religiosidade no Brasil terá assim de ser algo diferente, pois não temos o Jeová trágico dos judeus nem o Deus punitivo dos puritanos. Por isso também é diferente nossa visão do “castigo divino” e das pragas bíblicas. O “castigo divino” não está na índole. O brasileiro não pensa em termos de causa e efeito – tem tanta aversão a essa idéia que não sei como isso está na Constituição, ao lado de pérolas como o Estado garantindo o direito à vida, ou os juros de 12%… De nosso sincretismo com as culturas animísticas e tribais de índios e africanos, ficou-nos um fatalismo, no lugar da noção de responsabilidade dos próprios atos.
(…)
A grande função integrativa do nosso mosaico racial foi durante muito tempo exercida pela religião católica. Mas, o catolicismo sofre hoje três tipos de desafio: o desafio do divisionismo interno; o desafio da rotinização do carisma pelo surto das igrejas protestantes; e o desafio do sincretismo religioso, a que acima nos referimos.

No Brasil, a crise da transição para o mundo contemporâneo, intensificada pela rápida industrialização dos anos 50 em diante, foi acompanhada pelos males habituais do início do desenvolvimento: explosão urbana, favelização, pobreza extrema dos contingentes sub-qualificados para o mercado no setor moderno. Quadro penoso, que assustava uma Igreja habituada ao ritmo mais sedado da sociedade agrária tradicional. Numerosos esforços foram feitos, e o mais promissor, o movimento das Comunidades Eclesiais de Base, trouxe promessas de uma ação bem mais focalizada, conquanto excessivamente politizada.

São várias as origens da crise da Igreja Católica. A crise econômica surgiu, em sua maior parte, do esforço dispendido por alguns setores da Igreja para criar algo que se poderia chamar de marxismo cristão, pontilhado pela descoberta da violência e pelo desencanto com a caridade, como instrumento de justiça social.
(…)

A habilidade da Igreja para mobilizar aspirações excede vastamente seu conhecimento do instrumental para a solução de problema. Daí o ingênuo desenvolvimentismo, que leva alguns setores da Igreja Católica a lastimáveis exercícios em areia movediça, porquanto denunciam a injustiça social com relação aos pobres e, ao mesmo tempo, fazem crescer inexoravelmente as fileiras do exército dos pobres, ao se opor a métodos modernos de controle da natalidade.
(…)

Vindo de um país, a Polônia, que sofreu na carne as agruras do socialismo real, o Papa João Paulo II tem procurado reafirmar os valores pastorais, moderando o entusiasmo politizante e ingênuo dos teólogos desviados da Cidade Celestial para a Cidade Secular. Mas, se ele fez um aggiornamento da ideologia política, adequado às realidades dos países semi-industrializados da Europa Oriental, manteve, se não agravou, o divisionismo em relação a um problema crucial das sociedades em desenvolvimento: o planejamento familiar. É absurdo fazer uma opção preferencial pelos pobres, e ao mesmo tempo ignorar que a paternidade desenfreada das classes mais pobres transformam-nas em fábricas de pobreza e sementes de meninos de rua…

O outro grande desafio á função integrativa do catolicismo é o surto das igrejas protestantes. É um fenômeno complexo, que tem como uma de suas raízes aquilo que, usando a terminologia de Max Weber, se poderia chamar de “rotinização do carisma”. O pastor é um homem comum, sem complicação hierárquica e mais próximo dos fiéis pela ausência de ostentação litúrgica. As igrejas protestantes exploram melhor o coral, a vivencia da Bíblia e a solidariedade comunitária. Deus parece ficar mais perto, sem a intermediação dos santos e da hierarquia eclesiástica. Essas igrejas substituem a preocupação dos dogmas abstratos pela discussão das carências imediatas. Há menos sentido trágico do pecado e dispensa-se a intermediação da confissão para o efeito da purificação espiritual. Mas, o protestantismo tem também suas pragas. Se a praga do catolicismo chamado “progressista” é a politização, a praga do protestantismo é a sua mercantilização.

A politização de certos segmentos da Igreja Católica em nada lhe ajuda na manutenção de uma posição hegemônica na religiosidade popular, e encerra o risco de tornar o catolicismo irrelevante para a angústia do cotidiano. Como tomar a sério a Conferência Nacional dos Bispos, quando estes se tornam constitucionalistas e tecnólogos, desfraldando bandeiras contra a revisão constitucional (que ajudaria os pobres dando ao governo instrumentos para debelar a inflação) ou contra a lei de patentes (que estimularia a engenharia genética para corrigir deformidades desumanas) ?

Para a política aí estão os políticos, abertamente, sem disfarces institucionais, na arena dos debates políticos. E qualquer cidadão pode escolher quem lhe apraza, ou agir politicamente por conta própria. Os clérigos devem continuar sendo guardiões da religiosidade, para segurar a alma nacional através das mudanças da condição contemporânea. Ao “funcionário do sobrenatural” mais que ninguém se aplica o conselho de Max Weber: “aqueles que buscam a salvação das almas, a sua e a do próximo, não devem buscá-la nas avenidas da política”.
(Livro: “Reflexões para o futuro - 25 anos da Revista Veja”; Edição Especial; 1993; páginas 219 a 227).

Após a leitura do texto, proponho as seguintes questões:

1. Uma religião (qualquer uma) pode se envolver com política sem nenhum problema ?
2. A Igreja Católica ainda exerce a sua “função integrativa” ?

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