Sexualidade e pedofilia: uma aproximação

25 Maio 2008 – 8:00 am

Quando evoluída de modo adequado e saudável, a sexualidade faz romper o narcisismo que caracteriza os primeiros vínculos que o bebê estabelece com seus pais. Ela nos abre, então, para o outro em seus desejos e manifestações, inaugurando uma ética relacional calcada no real e, por isto, capaz de escapar ao “círculo de ferro” das compulsões típicas do narcisismo.

Sendo um potencial indispensável para qualquer projeto de realização humana, a sexualidade passa a alavancar a comunicação das pessoas com seus semelhantes de ambos os sexos e com as instituições da sociedade em geral.

Como sinal de nossos tempos, sexo e corpo têm duas outras ressonâncias que não devem ser esquecidas. Possuem, primeiro, um marcante valor econômico e, secundariamente, um crescente valor estético. Ambos se expressam em máximas como as seguintes: “aproveite enquanto você é novo/a e bonito/a” ou “faça render sua aparência física”. Isto vale tanto para as mulheres, agora mais liberadas, quanto para os homens, tornados inseguros pela desenvoltura maior com que as mulheres se mostram na sociedade em geral e no campo afetivo-sexual em especial. E o que isso tem a ver com sexualidade e com a escolha da vida religiosa ou do sacerdócio?

Muito, pois os padres e religiosos de hoje são filhos de pais gerados neste contexto sócio cultural que lhes inculca, desde cedo, padrões e exigências para os quais já os genitores estavam despreparados. Pais e mães que têm dificuldade em se constituir como pessoas totais [9], portadoras de identidades de gênero e sexo bem delineadas, não podem fornecer aos seus filhos modelos idôneos de ser e comportar-se no mundo tão complexo em que vivemos. E é deste mundo cultural e espiritualmente ambíguo que nos chegam os pacientes religiosos para a psicoterapia. Não há que olvidar que também nós, psicoterapeutas e os encarregados da formação nos seminários, estamos todos mergulhados neste mesmo mundo carregado de indefinições. Somos todos filhos de uma mesma modernidade em crise.

Ninguém dispõe ainda de uma explicação inteiramente adequada da homossexualidade humana, isto é, de uma teoria complexiva capaz de dar conta de seus fatores fisiológicos - genéticos, hormonais e neurológicos - e igualmente dos complexos elementos psicológicos, sociológicos e histórico-culturais que se escondem por trás de sua gênese. A homossexualidade, como a própria sexualidade, continua sendo uma “esfinge” também para as ciências [10]. O que a ciência contemporânea já tem como consenso é que não se pode tomar nem a tendência, nem o comportamento homossexual, como sendo algo sempre doentio.

[9] O conceito de pessoa total aparece e é desenvolvido pela Psicanálise inglesa. Refere-se a integração da personalidade e a delimitação de fronteiras entre o eu e o outro, favorecendo o estabelecimento da ética que não se apropria do outro como mero objeto para suas necessidades ou desvios.

[10] Cf. MOSER, A . O enigma da esfinge. Petrópolis: Vozes, 2001.

Esse artigo foi retirado do texto : Obsessão, Culpa e Espiritualidade em um Religioso com Comportamento Pedofílico, da autora Eliana Massih.

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