Eutanásia : Cristianismo

26 Maio 2008 – 9:19 am

O cristianismo com suas correntes representam a religião com maior número de adeptos, cerca de dois bilhões de pessoas no mundo A perspectiva cristã em torno do tema, não recepciona a idéia da eutanásia, porque a vida humana é dom de Deus. Querem alguns apoiar a idéia da eutanásia no texto bíblico que narra o episodio quando o rei Saul, ferido de morte em batalha pede a um inimigo que o mate. (Bíblia, Samuel, capítulo 31, versículos 1-13). Ora, esse trecho atesta a impossibilidade de não ser permitido ao judeu cometer suicídio. No âmbito da doutrina católico-romana, o Concílio Vaticano II, em 1980, condenou veementemente a prática da eutanásia, por considerar uma cabal violação do mandamento divino.

[…] nada nem ninguém pode autorizar a morte de um ser humano inocente, porém, diante de uma morte inevitável, apesar dos meios empregados, é lícito em consciência tomar a decisão de renunciar a alguns tratamentos que procurariam unicamente uma prolongação precária e penosa da existência, sem interromper, entretanto, as curas normais devidas ao enfermo em casos similares. Por isso, o médico não tem motivo de angústia, como se não houvesse prestado assistência a uma pessoa em perigo. (NOGUEIRA, p. 47, 1995)

O que a Declaração entende por eutanásia: “Por eutanásia, entendemos uma ação ou omissão que, por sua natureza ou nas intenções, provoca a morte a fim de eliminar toda a dor. A eutanásia situa-se, portanto, no nível das intenções e no nível dos métodos empregados”. O documento condena duramente a eutanásia como sendo uma “violação da Lei Divina, de uma ofensa à dignidade humana, de um crime contra a vida e de um atentado contra a humanidade”. No que toca ao valor da vida humana, esta é vista como sendo “o fundamento de todos os bens, a fonte e a condição necessária de toda a atividade humana e de toda a convivência social. (…) os crentes vêem nela, também, um dom do amor de Deus, que eles têm a responsabilidade de conservar e fazer frutificar”. (Declaração Sobre a Eutanásia apud PESSINI, 1999)

Posição mais recente da Igreja Católica não comunga com a idéia da morte assistida, interpreta a eutanásia como fruto de uma cultura da morte, gerada por uma sociedade de consumo e bem-estar que não suporta a velhice e a debilidade.

Em relação à eutanásia, basicamente retoma a argumentação da declaração de 1980, mas coloca o problema como sendo “um dos sintomas mais alarmantes da ‘cultura da morte’ que avança, sobretudo, nas sociedades do bem-estar, caracterizadas por uma mentalidade eficientista que faz aparecer demasiadamente gravoso e insuportável o número crescente das pessoas idosas e debilitadas. Com muita freqüência, estas acabam por ser isoladas da família e da sociedade, organizada quase exclusivamente sobre a base de critérios de eficiência produtiva, segundo os quais uma vida irremediavelmente incapaz não tem mais nenhum valor. ( Encíclica Evangelium Vitae apud PESSINI, 1999).

Embora o posicionamento oficial da Igreja condene a prática da eutanásia para seus fieis, aparecem outras correntes de pensamento no sentido de interpretá-la, com a preocupação da necessidade de uma morte que respeite a dignidade do ser humano em face da longevidade e dos graves problemas de saúde provocados pela idade avançada.

[…] condenação de atos imorais, para exortações a compreender e engajar-se sinceramente na tarefa de proporcionar ajuda para que os pedidos para morrer se tornem desnecessários. […] atenção deslocou-se da ‘inviolabilidade’ da ‘vida inocente’, considerada mais ou menos como uma categoria abstrata, para a condição concreta e para a globalidade dos elementos que constituem seu bem-estar, e busca implementar o “direito de morrer em paz com dignidade humana e cristã” […] (PESSINI, 1999).

A sacralidade da vida na visão cristã, não exclui a liberdade humana, nem tampouco a decorrente intervenção do gênio humano. O progresso da ciência serve para garantir o suporte necessário a uma vida digna e não de esteio ao sofrimento ou a dor desnecessária, quando a medicina e seus aparatos já não conseguem garantir a restauração da saúde perdida, e curar os malefícios ocasionados pelas doenças da degeneração que são extremamente gravosas ao organismo. A vida é patrimônio de Deus, o pensamento cristão defende a preservação da vida, contudo sem relegar arrogantemente para segundo plano a capacidade do ser humano de decidir o que é certo e errado, segundo a consciência dada por Deus.

NOGUEIRA, Paulo Lúcio. Em defesa da vida: aborto, eutanásia, pena de morte, suicídio, violência e linchamento. São Paulo: Saraiva, 1995.

PESSINI, Léo. A Eutanásia na Visão das Grandes Religiões Mundiais: (Budismo, Islamismo, Judaísmo e Cristianismo), 1999. Disponivel no sítio, acessado em 6 de maio de 2007.

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