Novos ventos secularizantes e humanistas

18 Junho 2008 – 1:30 pm

Houve uma época em que a religião do Estado era a religião imposta aos cidadãos (súditos, servos e escravos). Hoje, ninguém questiona o direito à liberdade religiosa, no qual cada um de nós somos livres para escolher a religião que nós quisermos, e de vivê-la em nossa vida pessoal ou particular. Pois, chegará uma época em que a religiosidade pessoal será tão valida quanto a denominacional, quando as pessoas compreenderão que os conceitos de Deus e religião são distintos.

Este é um processo que se iniciou em 1891, quando a Igreja Católica Romana deixou de ser a religião oficial do Brasil. Na Constituição de 1891, Artigo 72, parágrafo 7°: “Nenhum culto ou igreja gozará de subvenção oficial, nem terá relações de dependência ou aliança com o Governo da União ou dos Estados”.

O Brasil republicano instituiu o Estado Laico, e permitiu o surgimento de uma sociedade secular. A partir daquele momento, as pessoas passavam a ser livres para acreditarem, ou não, no que quiserem. Ora, um paradigma tinha sido quebrado, e não apenas no Brasil, mas em vários países de todos os continentes. Hoje em dia, o conceito de Estado Laico é defendido até por religiosos conservadores. Mesmo porque no Brasil, e vários países do mundo ocidental, nunca existiu uma teocracia de fato, mas apenas uma aliança política, com o predomínio do governo instituído, reduzindo a religião a mais um órgão do governo.

Um exemplo claro disso está na chamada “questão religiosa” envolvendo a maçonaria ainda na década de 1870. O papa Pio IX repudiava a maçonaria, e tinha promulgado uma bula papal condenando-a. Contudo, havia vários integrantes da maçonaria na Corte Imperial de D. Pedro II. E o Imperador resolveu não seguir as determinações do papa (e D. Pedro II tinha autoridade para isso, pois era o governo quem bancava grande parte das atividades da igreja, podendo até indicar bispos). Houve a prisão de dois bispos influentes: Dom Vital Maria de Oliveira (Bispo de Olinda), e Dom Antonio de Macedo (Bispo do Pará).

Neste século, há mais um paradigma a ser quebrado: a religião denominacional como “o caminho que conduz a salvação”.

No final do século 19, o conceito de Estado Laico, onde religião e Estado são coisas distintas, prevaleceu. Hoje, na maior parte do mundo, há a liberdade religiosa constitucional, pois as leis são baseadas em verdades não religiosas. Ora, as pessoas são livres para escolherem a religião que bem entenderem. E o Estado deve atender a todos os cidadãos, e sem qualquer discriminação, pois todos pagam impostos. Hoje, a religião não pode se intrometer nos assuntos típicos do Estado, e nem na vida particular dos cidadãos.

Neste século 21, haverá uma pulverização de religiosidades. As pessoas não aceitarão imposições religiosas que não tenham uma explicação racional, e os grupos mais fanatizados ficarão reclusos em guetos. Cada pessoa buscará constituir a sua própria forma de religiosidade, a sua religião pessoal ou familiar. Cada um será o seu próprio sacerdote.

Contribuem para esta nova realidade:

-o aumento das liberdades individuais;
-a afirmação de uma identidade pessoal para cada individuo (ao invés de “identidades grupais” baseadas em etnias, “raças”, classes, castas ou religiões, onde o individuo se vê “forçado” a aderir à formas padronizadas de pensamentos e comportamentos);
-maior racionalização da vida humana.

Isso levará várias décadas para ser o modus vivendi predominante. Mas, acredito que isto é inevitável.

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  1. Um Comentário to “Novos ventos secularizantes e humanistas”

  2. Muito interessante!
    Porém, a parte que não concordei foi quando falou-se em religião denominacional.
    Eu, em particular, não sigo uma religião denominacional (antes seguia, hoje vejo além; abri minha mente pra muita coisa, porém sem perder a essência). Acredito que a igreja é um lugar para “comunhão”, ou seja, vai-se à igreja para prestar um “culto racional” a Deus, com as outras pessoas. Culto racional, assim, você vai estar sabendo o que faz e como faz, usando a razão!
    Acredito que muita gente pensa assim, porém “o caminho que conduz à salvação” é Jesus Cristo (assim creio) e não uma denominação.
    Mas concordo quando você fala numa “maior racionalização da vida humana”, porém acredito que será de uma forma lenta.

    By Janaina on Jun 20, 2008

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