A jogatina religiosa

8 Julho 2008 – 1:31 pm

Baseado em fatos reais.

João da Silva era um típico carioca do subúrbio do Rio. Vivia sempre alegre, risonho, fazendo amizades facilmente. Contudo, estava sempre atolado em dívidas, já que seu salário mal durava os primeiros 15 dias do mês. Tinha apelado para tudo, dos santos aos orixás, e nada acontecia. Até que foi despertado para algo muito inusitado…

Numa tarde de 2° feira, na hora do almoço, João ligou a televisão. Curiosamente, não fora a sua emissora “favorita” que aparecera na telinha com o diário esportivo costumaz. Ao contrário, estava sintonizado noutra emissora, e a deparar-se com um programa estranho. João resolveu assistir aquele programa. Enquanto almoçava, assinalava aos poucos alguns cartões lotéricos. Subitamente, surge na tela um homem de terno dizendo-se iluminado, a dizer que a prosperidade era possível bastando-se seguir certas instruções. João deu uma pausa rápida. Foi pegar um copo d’agua. Estava nervoso. Voltou rapidamente para a sala, e ouviu mais sobre aquele negócio da China. Carro importado, roupa de grife, apartamento de luxo na área mais nobre do Rio. Tudo era possível. Anotou o endereço da prosperidade, e determinou que iria naquele dia mesmo ao encontro da sorte grande.

Chegou na reunião cedo, pois queria conhecer bem aquele lugar. Estava tudo bem posto, bem arrumado e o ambiente era até aconchegante. O palestrante inicia a sessão. Durante mais de 1 hora, fala sobre as “coisas grandes”, e de uma fé que transformaria os fiéis em super-hérois acima de qualquer suspeita. Quase no fim da reunião, João houve um apelo de mais um homem engravatado. “Quem quiser fazer parte deste negócio, deve se comprometer“, disse. João da Silva abriu a carteira, pegou a quantia estipulada na palestra e firmou o seu pacto. Naquele instante, ele sentiu um sensação de alívio. Afinal, aquele dinheiro não era dele.

A partir daquele dia, ele passou a ser um assíduo freqüentador das reuniões dos empresários. Um mês após sua adesão, ele foi intimado a participar de uma campanha que mudaria sua vida. “Só os vencedores participam de coisas como essas“, disse um amigo que era auxiliar. Confiantemente, João foi até a uma agência da Caixa Econômica e sacou tudo o que tinha. Entregou seu pequeno tesouro ao homem de terno, que lhe falou para esperar o resultado do investimento. O tempo passou e nada de ver os frutos daquela obra se traduzirem em benesses para o novo investidor. Foi reclamar com o bispo. Este lhe respondeu que era necessário investir mais. João acatou o conselho do mestre, e se desfez de todos os seus pequenos tesouros mundanos, a saber: o carro usado, o computador, a televisão nova e um tênis de marca. Chegou ao ponto de cogitar vender a própria casa. E nada de explendoroso aconteceu.

Hoje, mais de um ano após o último sacrifício, João da Silva se encontra endividado, subjugado e transtornado. Os poucos amigos que restaram perguntam-lhe sobre o por quê do acontecido. “Uma coisa que eles chamam de deus pode mudar a vida de qualquer pessoa“, ele dizia envergonhado. “Mas comigo ele nada fez“, acrescentava resignadamente. Agora, arrepende-se dos atos insanos que cometeu. Está a pedir socorro, e a vagar pelas praças da cidade pedindo donativos pessoais. O curioso é que os antigos irmãos quando o vêem fingem que não o conhecem. Entre eles, dizem que João caiu em tentação. “Ele tinha que ter ficado firme“, diz um auxiliar e ex-amigo. Mas, um outro fiel replica: “Isto é uma provação, ele precisa ser testado“, diz.

Todos nós enquanto pessoas podemos ser questionados, mas os homens de terno parece-me que não. Pense nisto - e nas possíveis conseqüências de seus atos - quando ver o próximo programa de televisão.

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  1. 5 Comentários to “A jogatina religiosa”

  2. Bem, estou sempre por aí com este nickname com que “assino” este comentário. No entanto, sendo este aqui um blog que revela uma postura de vida, esqueça um pouco esse “lerdo” e esse “surtar”. Faço parte de uma brincadeira juntamente com o co-autor de um blog que satiriza outras práticas, além dessa mesma que você menciona. E… amigo… não há dúvida. Muita coisa é feita como um grande investimento, mas apenas e tão somente para os tais “missionários”, antes evoluídos para “bispos”, agora “apóstolos”. Quando li o que você escreve e a proposta do blog, não deixei de me sentir identificado com essa necessidade de tentar alertar. Sei que você aqui não está procurando “justificar” uma atitude de crítico, como se buscasse que alguém provasse o contrário. Na verdade, isso se chama “estar alerta”. Se eu puder ajudar com um pouco de comentários satíricos, estarei conhecendo mais o espaço aqui e logo retornarei.
    ………..
    Um grande abraço.

    By Lerdo em Surtar on Jul 6, 2008

  3. Noossa!
    Muito simples.
    “Tudo depende de nosso objetivos”…isso parece-me que não tem exceções. Você acredita que esse homem buscou Deus realmente? Ou foi uma vida financeira melhor? As pessoas só são enganadas quando são ingênuas. Deus, acredito, não é um “tio Patinhas”, ele criou um mundo perfeito, seres perfeitos para viverem em harmonia, só o que vemos são pessoas que se utilizam dessas dádivas com outros objetivos, inclusive ludibriadas para ludibriar outros (é um ciclo). Acredito na força de vontade e na garra do ser humano para ter sucesso proficional, Deus não vai fazer o que nós temos que fazer. Quanto a intenção do autor, acredito que contar acontecimentos assim para generalizar não é inteligente…É o mesmo que dizer que Deus é mau, errou quando nasceu uma criança defeituosa (a criação não é perfeita?). Olhe a infinidade de pessoas que vc conhece. Assista a um jogo de futebol e veja quantas pessoas perfeitas (fisicamente). Como disse Dr. Paul Brand, o maravilhoso não é nascer uma criança defeituosa, mas nascerem milhares perfeitas. Casos isolados não são utilizados pela ciência, por exemplo, mas tempos de pesquisas e exemplos diversos…

    By Janaina on Jul 10, 2008

  4. profissional..foi mal…esqueci um “s” em “nossos”

    By Janaina on Jul 10, 2008

  5. Olá pessoal,

    “acredito que contar acontecimentos assim para generalizar não é inteligente…” (Janaina)

    Eu não estava generalisando, apenas expus uma estória baseada em fatos verídicos.

    Se tiveres tempo, acessa este blog:
    http://www.ordemdotemploiluminista.blogspot.com

    By James Mytho on Jul 10, 2008

  6. Errata: onde está escrito “generalisando”, leia-se generalizando*.

    Esta estória é muito comum na vida de muitas pessoas que vivem buscando soluções rápidas para os seus problemas cotidianos (são os crentes “fast-food”). Por isto, torna-se uma história real e terrível para muitos. Mas, muitas religiões sabem explorar o sofrimento alheio. E como há muitos indivíduos que só obtem uma palavra “amiga” nos tais templos, então eles acabam aderindo a essas vãs pregações.

    By James Mytho on Jul 10, 2008

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