A ópera dos deuses

10 Julho 2008 – 1:14 pm

O capítulo 9 do livro “Dom Casmurro” de Machado de Assis, conta de forma alegórica (figurada), e quase como uma parábola o drama da criação da humanidade, e os conflitos entre Deus e Satanás. Não é um texto ocultista, mas tem um conteúdo de teor metafísico.

Analisando o texto percebemos um certo pessimismo do autor. Tudo já foi previamente e meticulosamente planejado sem a possibilidade de quase alteração posterior, e mesmo para retificações. A obra da criação seria apenas um momento de diversão divina, sem nenhum motivo mais especial.

Satanás fora expulso da presença do Altíssimo em razão de sua insubordinação, mas que seria passível de compreensão já que ele não havia recibo as devidas honrarias antes da rebelião. Contudo, Satanás na ânsia de querer mostrar que era bom o suficiente no que fazia, conseguiu dissuadir Deus a prolongar aquele entretenimento, e em razão disto teria criado a humanidade. Logo, não haveria nenhum desígnio especial da parte de Deus em relação às suas vãs criaturas que seriam apenas personagens de uma grande peça teatral ou jogo divino.
O enredo da história foi elaborado por Deus, mas a trilha sonora foi composta por Satanás. A história é interessante e envolvente, com bons momentos admitidos por todos. Porém, há algumas discordâncias, a começar pelos admiradores da obra: uns dão mais crédito ao Autor, e outros ao Maestro. Além disso, a história parece ter várias contradições (já que não houve um acordo prévio entre os Produtores da obra). Os que admiram o Autor dizem que todas as contradições, desencontros, e incoerências são por culpa do Maestro, que não sabe escolher as composições mais bem afinadas. E chegam a dizer o Maestro influenciou alguns personagens para que não atuassem conforme o que fora pré-estabelecido. Por isso, o Maestro deve receber todas as críticas porque corrompeu a obra de propósito. Mas, os fãs do Maestro dizem que tudo seria resolvido se o Autor tivesse ouvido o Maestro. E há alguns que preferem ser imparciais, apesar de também não deixarem de dar suas opiniões.

As encenações, ou melhor o espetáculo, duraram enquanto for um motivo de entretenimento do Autor e do Maestro. E é provavel que ainda o sejam por muito tempo, visto que muitos personagens adoram os seus papéis. Os Produtores deste drama épico, milenar, e às vezes deprimente, recebem as suas honrarias de acordo com a percepção dos expectadores (que às vezes não correspondem à realidade das cenas).

A seguir a transcrição do capítulo do livro.

Livro: Dom Casmurro (Capítulo IX).
Ano: 1899.
Autor: Machado de Assis.

“A ópera”

“- A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimários, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo, e dos mesmos comprimários. Há coros numerosos, muitos bailados, e a orquestração é excelente…
(…)
Deus é o profeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera, do qual abriria mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros, - e acaso para reconciliar-se com o céu – compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.

- Senhor, não desaprendi as lições recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a, emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés…

- Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.
- Mas, Senhor…
- Nada ! nada !

Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.

- Ouvi agora alguns ensaios !
- Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.

Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram, alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. Com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição, fugindo á monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficientes. Certos motivos cansam à força da repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. Tal é a opinião dos imparciais.

Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa achar obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem o mesmo os amigos deste. Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares, e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescência para imitar as Mulheres patuscas de Windsor. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade, que parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.

- Essa peça, concluiu o velho tenor, durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: Muitos são chamados, poucos os escolhidos. Deus recebe em ouro, Satanás em papel.”

No capítulo seguinte:
“Que é demasiada metafísica para um só tenor, não há dúvida; mas a perda da voz explica tudo, e há filósofos que são, em resumo, tenores desempregados.”

Que vós tireis vossas próprias conclusões.

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