Mulheres Negro-Bantu: Ritos da puberdade
5 Novembro 2008 – 12:00 pm
No seu livro Cultura tradicional banto, Raul Altuna (1985:279) situa a prática da excisão entre os ritos de celebração da puberdade. Esta constituiria uma das fases da iniciação à vida comunitária. A excisão é cerimônia inaugural dos ritos de puberdade. Portanto, sua prática deve ser entendida como rito da fase de puberdade, como iniciação à vida de comunidade. Sem ela, a mulher não se vai “fazendo”, completando, realizando. Só a excisão a situa no lugar religioso e social exato, torna-a apta para as suas responsabilidades e lhe permite movimentar-se com eficácia na pirâmide vital[2] interativa.
O negro ou a negra guardam no maior sigilo o que viveram.; há referências mítico-místicas que desconhecemos, que utilizam linguagem e nomes cifrados, esotéricos, que nunca se revelam ao profano. Entre os segredos familiares, clânicos e étnicos que o banto guarda zelosamente, os referentes à iniciação ocupam lugar à parte. É nosso intento explicar o significado dos ritos de iniciação na puberdade da mulher bantu. A iniciação da menina para a vida comunitária, os chamados “ritos de iniciação na puberdade”, além de se apresentarem como os mais chamativos desta cultura, revestem-se dum claro significado e da mais vistosa exterioridade.
Como situam as jovens no seu lugar dinâmico da vida cultural, social, política e religiosa do grupo, podemos considerá-los como o fundamento da comunidade, o suporte da religião e da garantia da continuidade da solidariedade. A consciência-experiência que a africana possui, de ser pessoa responsável no dinamismo humano-místico, é obtida por meio da iniciação. Por isso a mulher adulta não-iniciada, não gerada por esses ritos, é um indivíduo não-apreciado; carece do estatuto de gente; permanece excluído da sociedade. As mulheres rejeitam os homens não-iniciados e a sua condição de “associais” os equipara a um ser estranho à comunidade. Fica um ser incompleto. Não “passou”, por isso não “renasceu”. Não é homem perfeito, nem encontra lugar na sociedade por causa da sua ambigüidade. Não legalizou a virilidade nem está emancipado.
2 A vida do munto (pessoa) é concebida como uma participação na relação marcada pela hierarquia entre o mundo invisível (Deus, força suprema de vida; espíritos - gênios; antepassados qualificados: chefes, guerreiros…; antepassados da comunidade) e mundo visível (chefes: de família, de clã; anciãos; a comunidade; a pessoa: centro da pirâmide; animais; vegetais; mundo inorgânico; fenômenos naturais …). Cf. Aléxis KAGAME , La philosophie bantu-rwandese de l´Etre , New York: Jonson Reprint Corporation, 1956; La
philosophie Bantu camparée. In: Presence africaine (1976).
Capítulo 2 do Artigo:
KIMBANDA. Rufino Waway. Excisão como Iniciação Sexual e Religiosa em Mulheres Negro-Bantu. Revista de Estudos da Religião, 2006. Contato: rufin(a)terra.com.br.
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