Um pouco da histórica relação entre mídia e evangélicos
13 Novembro 2008 – 12:21 pmO evangelicalismo [5], sobretudo o que aportou em terras brasileiras, tem como uma de suas marcas a Palavra escrita e falada, a Bíblia. A centralidade da Palavra sempre foi fundamental para esse tipo de culto onde todas as atitudes e decisões deviam fazer referência ao texto bíblico. Tal evangelicalismo foi e, em certa medida, ainda é marcado por um fundamentalismo característico de sua origem sulista norte-americana.[6]
Porém, há pelo menos duas décadas os evangélicos vêm despertando interesse de variados segmentos de nossa sociedade, principalmente da mídia, por estarem estes assumindo diferentes posições e investidas no campo religioso, entre elas: a) o surgimento da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) na década de 1980, sua inserção ressignificadora no campo religioso brasileiro e suas relações com a mídia; b) a atuação da bancada evangélica na constituinte de 1988 e conseqüente crescimento de políticos evangélicos nas mais variadas eleições do país; c) o crescimento dos evangélicos em paralelo com o declínio católico apontado nos censos do IBGE.[7]
Entendemos que o campo religioso brasileiro é bastante difuso com variados matizes e ideologias. Mais especificamente, o campo religioso evangélico é um caleidoscópio, em que igrejas são formadas, se dividem e se unem a outras construindo assim um tipo especial de protestantismo. Sendo assim, causa estranheza quando a mídia se refere aos evangélicos como se estes tivessem uma união programática e ideológica muito bem definida e articulada.
Alguns estudos mostram os primórdios da relação entre evangélicos e mídia[8]. A partir de 1940 surgiram no Brasil os primeiros programas evangélicos no rádio e as denominações pioneiras foram a Igreja Adventista, a primeira a alcançar o rádio a nível nacional, e algumas pentecostais como a Assembléia de Deus, a Igreja do Evangelho Quadrangular, O Brasil Para Cristo e a Igreja Deus é Amor. O modelo desses programas nos primeiros anos era norte-americano, e posteriormente, passaram a ser idealizados por brasileiros.
Um fato curioso aconteceu no Rio de Janeiro. Em fins da década de 1950 o missionário canadense Robert McAlister começou um programa de rádio (A voz da Nova Vida) que posteriormente deu origem à Igreja de Nova Vida em 1960. Na mesma década começaram acontecer os primeiros programas evangélicos na televisão. Esses programas eram locais, de curta duração e novamente, os adventistas saíram na frente com um programa primeiro em São Paulo e depois no Rio de Janeiro. Em meados da década de 1960, o missionário Robert McAlister da Igreja de Nova Vida iniciou seu programa na TV Tupi/Rio, sendo o primeiro pentecostal a ingressar na televisão. Outras iniciativas foram acontecendo ao longo da década de 1970, mas nada como a importação dos tele-evangelistas norte-americanos. Eram muitos os programas de TV evangélicos norte-americanos nesta década.Independente de denominações, tais programas se apoiavam no carisma de seus líderesque possuíam várias tendências teológicas e ideológicas. Essa iniciativa foi chamada de Igreja Eletrônica[9]. Programas como Alguém Ama Você de Rex Humbard, Clube 700 de Pat Robertson, e os cultos do Pastor Jimmy Swaggart eram transmitidos para todo território nacional.
Contudo, tais programas não surtiram o mesmo efeito que tinham nos Estados Unidos, ou seja, não tiveram aqui o poder de mobilização e pressão que exerciam entre os norteamericanos, entre outras coisas, porque eram produzidos em outra cultura, com outra perspectiva de vida diferente da dos brasileiros. Esses programas duraram até meados da década de 1980, quando a produção nacional de televisão cresceu e tornou-se independente da produção estrangeira.
Em 1989, quando várias denominações detinham concessões de rádios, a IURD adquiriu a Rede Record de Televisão se tornando a primeira denominação evangélica a ser proprietária de uma televisão com cobertura nacional. Os estudos supracitados enfatizam a repercussão deste fato.
3 Essas empresas de comunicação são reproduzidas em quase todo território nacional por pequenas rádios que formam uma rede de comunicação.
4 Apesar de nosso interesse pelo rádio as empresas de comunicação que escolhemos possuem editora, gravadora de cd’s, provedor de Internet e algumas incursões na televisão.
5 Assim se denomina o movimento que nascido e desenvolvido no seio do fundamentalismo norte-americano em fins do século XIX flerta com a teologia liberal. O movimento não nega sua origem nem assume seu flerte, daí a discussão em torno dessa definição. Segundo Longuini Neto, todas as definições “favoráveis” a definição de evangelicalismo são apologéticas e não analíticas. P.FRESTON, Protestantes e política no Brasil…, pp. 27-63; L. LONGUINI NETO, O novo rosto da missão, pp. 17-31.
6 L. K. A. SANTANA, Tensão atrás das “muralhas”…, pp. 65-72.
7 Em números absolutos: o católicos caem de 95,2% (39.177.880) em 1940 para 73,8% (124.980.131) em 2000 enquanto os evangélicos crescem no mesmo período de 2,6% (1.074.857) para 15,45% (26.184.942). L. S. CAMPOS, Protestantismo brasileiro…pp.129.
8 H. ASSMANN, A Igreja Eletrônica…, 1986; A. P. ORO, Religiões Pentecostais… in: Revista EclesiásticaBrasileira, 50, 198, junho, pp.304-334; P. FRESTON, op. cit., 1993; A. B. FONSECA, Evangélicos e mídia…,1997.
9 H. ASSMANN, op. cit. pp.16.
Parte integrante do artigo:
SANTANA, Luther King de Andrade Santana. Religião e Mercado: A Mídia Empresarial-Religiosa. Revista de Estudos da Religião, 2005.
Tags: bíblia, culto, evangelicalismo, evangélicos, IBGE, IURD, mídia, pentecostal



























6 Comentários to “Um pouco da histórica relação entre mídia e evangélicos”
Olá, Luther !
Congratulo-te por este artigo, que está corretíssimo.
Saudações !
Um adendo:
O “protestantismo” brasileiro, em sua maioria, nada tem a ver com as religiões reformadas da Inglaterra, Alemanha ou Holanda. Pois por aqui abunda o movimento pentecostal - quase uma outra reforma dentro da reforma protestante.
A religiões pentecostais desconsideram as tais 95 teses luteranas, propondo-se a fazer uma espécie de retorno ao “cristianismo primitivo”. Para eles, o que vale é o que está escrito em seus livros sagrados, não se importando com o estudo da Teologia ou da História da Religião.
Contudo, a crença em algo não o torna verdadeiro, caso não haja as devidas comprovações…
By James Mytho on Nov 13, 2008
bom dia!
quero agradecer (atrasada, desculpe-me!) pela sua visita ao meu blog.
e aproveitar para convidá-lo a voltar, uma vez que há novos posts e novas páginas.
tenha um bom final de semana!
By Silvinha on Nov 14, 2008
em tempo> li agora o comentário do James Mytho, no qual ele se engana ao dizer que as religiões pentecostais desconsideram as 96 teses de Lutero. como pentecostal que sou, posso afirmar que isso não é verdade. e para nós, pentescostais, o que vale é sim o Livro Sagrado - a Bíblia, Palavra de Deus - e o estudo sim (e muito estudo) da teologia, que inclui num dos seus módulos o a história da religião.
não falo por todas as denominações pentecostais, mas pela minha (Igreja do Evangelho Quadrangular) posso falar com veracidade.
grata pela oportunidade.
By Silvinha on Nov 14, 2008
oops! corrigindo meu erro de digitação:
95 teses de Lutero.
obrigada + 1 vez
By Silvinha on Nov 14, 2008
Concordo com a Silvinha. Estudamos muito. A idéia de que evangélicos, principalmente os pentecostais não estudam, não se interessam pela leitura, história e afins não passa de falácias feitas por “atoas” metidos a cultos. História, Geografia, Arqueologia e Ciência são matérias que estudamos com muito mais profundidade do que no meio secular…
Obrigado! Parabéns pelo site. Apesar de nos criticarem bastante, há coisas muito interessantes aqui. Um abraço a todos
Jesus vos Ama muito!
By Francelio on Dez 1, 2008
Notem ainda outro tipo de mídia repulsivo,repugnante, bastante usado pra encher ainda mais cada deplorável conluio crentólico:
REPÚDIO À PSICOLOGIA CANALHA.
Blumenau, Indaial, Brusque, Joinville … pessoas esforçadas, de excelente índole, prestativas e amigas mesmo … até debaixo dágua.
Diante da tragédia, vendo o desespêro das pessoas a gente pensa no que os que acham que são humanos estão fazendo com o mundo.
Mas, cada vez mais estupefacto, vou ao fundo da ferida.
Notem: parece que o esgôto tomou de vez conta da cabeça de muita, muita, gente mesmo. E é apenas o descambo nojento da pulhítica da ditadura religiosa que está aí “no controle”.
Tomem um copo de água bem limpa; porque isso aqui não vai ser mole.
O que será que esse séquito que anda pelas ruas, que envia convitezinhos nos nossos e-mails e orkut, à cata de gente pra encher esses antros de enganação chamados igrejas, o que esses lamentáveis esquisóides têm na infeliz cabeça?
Aproveitando-se da tragédia de Santa Catarina, esse pessoal fazendo mídia de sua imensa “bondade” vai disseminando o seguinte argumento com sua conhecida cara estanhada, falsamente risonha e toscamente repreendedora:
“Viu? Aquele povinho metido a rico? Agora depende de nós. Está vestindo roupa dada por pobres. É Deus pesando a mão.”
Ía colocar isto aqui em letras grandes; mas vou fazer outra coisa: Vou dizer o que está por trás dessas mentes deploráveis, insanas, prepotentes, pedantes, esdrúxulas, pérfidas, hipócritas, NOJENTAS; que de tanto respirar o hálito viciado uns dos outros dentro de seus antros hediondos já não têm sequer vestígio de qualquer senso.
Em todo lugar do Brasil há gente pobre, pobre, muito pobre; e gente rica também. Valer-se da tragédia para fazer mídia da MÃO DURA DO TREMENDO, e ainda por cima, tripudiar das pessoas diante duma calamidade, para promover a GLORIOSA BONDADE do povinho Glorioso, Salvo, Escolhido, nojovélico-crentólico, isso é o poço do esgôto em que chegamos, com essa psicologia safada, doutrinada por padres e pastores, que espalham suas ignomínias como veneno entre os seus bandos eufóricos ludibriados.
Pessoas humanas, parem por um instante, vejam a que são levados a pensar sobre si mesmos; vejam a salafra cara dos que fomentam isso, esse tipo de comportamento entre nós. SÃO OS PULHAS, que sempre mexem seus pauzinhos nos acontecimentos, e sempre tiram todas as vantagens em cima de nós; pois têm as nossas vidas para atormentar, para nos fazer atormentar-nos uns aos outros, para nos escravizar, para no fim das contas se justificarem como “intermediários bonzinhos”, e nós nos convencermos como mauszinhos.
NÃO É ASSIM PESSOAL. NÃO É ASSIM.
SERÁ QUE TEMOS QUE NOS ARREBENTAR TODO MUNDO PRA VER QUE NÃO É ASSIM?
O mucêgo-bêbo numa possível candidatura a mártir, voando por cima da tragédia, também faz seus asseclas pensarem que é de SEU governo que agora o povo sofrido precisa pra ajudá-los; o canalha não se dá conta que é da UNIÃO o dinheiro que povo brasileiro tem para socorrer-se de tragédias, e não é favor, nem distinção alguma tentar comprar a opinião das pessoas com UMA OBRIGAÇÃO, civil, social, humana.
Ao invés de estar distribuindo consôlo pra garotas de 12 anos nas escolas, e assinando acordos escusos para encher as salas de aulas de estupidez religiosa, o Brasil como ESTADO LAICO deveria estar melhorando a sua péssima educação; por que estamos ricos sim, mas só os parvos acreditam que está tudo bem. Os preços são exorbitantes, as mentiras como a da Petrobrás são gritantes, os velhos estão como tolos nas mãos de espertos. Onde está os seiscentos reais nos primeiros seis meses de governo? ISSO TUDO É O QUE TEMOS QUE VER.
Já estou farto de tanta canalhice.
By Haddammann on Dez 4, 2008