Basta de “Dogmas”; precisamos de “Utopias”! (Parte III)

Então, o que, afinal, deveria funcionar como fundamento de um sistema de crenças, como princípio de uma doutrina que, eventualmente, viesse a congregar pessoas, reunindo diferentes seres humanos em nome de um interesse comum? A meu ver, em vez de ser desempenhado pelos “Dogmas”, este papel poderia caber às “Utopias”!
Mas o que são “Utopias”? Vamos nós, de novo, ao Aurélio.
Segundo o Aurélio, “Utopia” é um “País imaginário, criação de Thomas Morus (1480-1535), escritor inglês, onde um governo, organizado da melhor maneira, proporciona ótimas condições de vida a um povo equilibrado e feliz”.
O Aurélio também define “Utopia”, por extensão, como “Descrição ou representação de qualquer lugar ou situação ideais onde vigorem normas e/ou instituições políticas altamente aperfeiçoadas” ou “Projeto irrealizável; quimera; fantasia”. A palavra “Utopia” exprime, então, um mundo perfeito, uma situação ideal que, por outro lado, também seria algo impossível de realizar, uma fantasia, um sonho. Em que, então, uma “Utopia” seria melhor que um “Dogma”, para fundamentar um sistema de crenças ou embasar uma doutrina?
Acredito que as “Utopias”, embora tidas como irrealizáveis, quimeras ou sonhos, são, diferentemente dos “Dogmas”, algo racionalmente elaborado pelos seres humanos. Algo que, ao contrário dos Dogmas, pode e até deve ser discutido, conversado e propagado, funcionando para reunir pessoas em torno de uma meta ou interesse comum. Um objetivo que, embora em princípio pareça inalcançável, poderia, eventualmente, ser atingido. A reunião de pessoas em torno de uma “Utopia”, qualquer que seja ela, poderia tranquilamente gerar grandes idéias e dar espaço a discussões aprofundadas, que originariam movimentos, tendências, revoluções e assim por diante. E isso é o que o Homem tem de melhor! A faculdade de discutir, conversar, tergiversar e, por meio disso, tornar o que antes era “irrealizável”, “fantasioso”, “sonho”, em algo concreto e palpável, que pode beneficiar milhões e milhões de pessoas.
Então, para concluir, me parece que as “Utopias” funcionariam muito melhor que os “Dogmas”, enquanto agentes de congregação de pessoas. Dado o fato de poderem ser discutidas, de poderem servir de tema para o discurso e a interação entre seres humanos, as “Utopias” seriam muito mais produtivas que os “Dogmas”, resultando certamente em progresso para a humanidade, e não em crenças doentias ou fundamentalismos cegos. Além disso, qual é o ser humano que não tem sonhos? Quem não tem um ideal para atingir? É disso que somos feitos e não de “Verdades Absolutas” e “Crenças Cegas”!
Estudo relaciona descrença religiosa a QI alto
Segundo pesquisa, QI médio é mais alto nos países onde há menor crença em Deus.
Um artigo de pesquisadores europeus, que será publicado na revista acadêmica Intelligence em setembro, defende a tese de que pessoas com QI (Quociente de Inteligência) mais alto são menos propensas a ter crenças religiosas.
O texto é assinado por Richard Lynn, professor de psicologia da Universidade do Ulster, na Irlanda do Norte, em parceria com Helmuth Nyborg, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e John Harvey, sem afiliação universitária.
Lynn é autor de outras pesquisas polêmicas, entre elas uma sugerindo que os homens são mais inteligentes do que as mulheres.
A conclusão é baseada na compilação de pesquisas anteriores que mostram uma relação entre QIs altos e baixa religiosidade e em dois estudos originais.
Em um desses estudos, os autores compararam a média de QI com religiosidade entre países.
No outro estudo, eles cruzaram os resultados de jovens americanos em um teste alternativo de habilidade intelectual (fator g) com o grau de religiosidade deles.
Na pesquisa entre países, os pesquisadores analisaram média de QI com o de religiosidade em 137 países. Os dados foram coletados em levantamentos anteriores.
Os autores concluíram que em apenas 23 dos 137 países a porcentagem da população que não acredita em Deus passa dos 20% e que esses países são, na maioria, os que apresentam índices de QI altos.
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A religião torna as pessoas mais felizes
Não resta dúvida de que os homens constroem, das coisas mais vulgares, a idéia de Deus, porquanto aquela idéia contém a noção do ente perfeitíssimo que criou o mundo do nada e providencialmente o governa.
Superestimar a importância do nosso planeta sempre foi um dos defeitos dos teólogos de todos os tempos. Sem duvida, isso era compreensivelmente natural nos dias de Copérnico, quando se pensava que os céus giravam em torno da Terra. Mas, desde Copérnico e, principalmente, desde a exploração moderna das religiões longínquas, esta preocupação com a Terra tornou-se um pouco paroquial. Se o universo tivesse um criador, não seria muito razoável supor que estaria especialmente preocupado com o pequeno grão em que vivemos? E, se não estivesse, seus valores deveriam ser diferentes dos nossos, visto que na imensa maioria das religiões a vida é impossível.
Há um argumento moral para a crença em Deus, que foi popularizado por William James. De acordo com este argumento, devemos crer em Deus porque, caso contrário, não nos comportaríamos bem. A primeira e maior objeção a esse argumento é que, no melhor dos casos, não pode provar que há um Deus, mas apenas que políticos e educadores devem tentar fazer as pessoas pensarem que há um. É uma questão política, e não teológica, se isso deve ser feito ou não. Este argumento é do mesmo gênero daqueles que sustentam que as crianças devem ser ensinadas a respeitar a bandeira nacional. Um homem com um mínimo de religiosidade genuína não ficará satisfeito com a idéia de que a crença em Deus é útil; ele desejará saber se, de fato, existe um Deus. É absurdo pensar que as duas questões são a mesma coisa. Nas escolas infantis, a crença no papai Noel é útil, mas homens adultos não pensam que isso prova a real existência do papai Noel.
Há uma versão mais simples e ingênua do mesmo argumento, que apela a muitos indivíduos. As pessoas dirão que, sem os consolos da religião, elas seriam intoleravelmente infelizes. Tanto quanto este argumento é verdadeiro, também é covarde. Ninguém senão um covarde escolheria conscientemente viver no paraíso dos tolos. Quando um homem suspeita da infidelidade de sua esposa, não lhe dizem que é melhor fechar os olhos à evidência. Não consigo ver a razão pela qual ignorar as evidências deveria ser desprezível em um caso e admirável noutro. À parte isso, o argumento da importância da religião em sua contribuição à felicidade individual é muito exagerado. Ser feliz ou infeliz depende de um número e fatores. A maioria das pessoas precisa de boa saúde e de alimento suficiente. Precisa da boa opinião de seu meio social e da afeição dos entes próximos. Não precisa apenas de saúde física, mas também de saúde mental. Dadas essas coisas, a maioria das pessoas será feliz, seja qual for sua teologia. Sem tais coisas, a maioria das pessoas será infeliz, seja qual for sua teologia. Pensando sobre as pessoas que conheci, não julgo que, em média, aquelas que possuíam crenças religiosas eram mais felizes do que aquelas que não as possuíam.
Existe, é verdade, uma versão modernista do teísmo, de acordo com a qual Deus não é onipotente, mas está fazendo o melhor que pode, apesar das grandes dificuldades. Esta perspectiva, apesar de nova entre os cristãos, não é recente na história do pensamento. Pode, de fato, ser encontrada em Platão: Não penso que esta visão possa ser refutada. Tudo que pode ser dito a seu respeito, penso, é que não há qualquer razão positiva em seu favor.
Minha conclusão é que não há qualquer motivo para julgar que os dogmas da teologia tradicional são verdadeiros e também nenhum motivo para desejar que fossem. O homem, desde que não esteja subjugado por forças naturais, é livre para construir seu próprio destino. A responsabilidade é sua, assim como a oportunidade.
Os primeiros sintomas de fanatismo e suas estratégias de sedução
O início de qualquer fanatismo consiste, em primeiro, reconhecermos um sujeito ou grupo estarem convictos, quando julgam de posse de uma certeza que recusa o teste da realidade. Nietzsche dizia que “as convicções são piores inimigas da verdade do que as mentiras“, porque quem mente sabe que está mentindo, mas quem está convicto não se dá conta do seu engano. “O convicto sempre pensa que sua bobeira é sabedoria” [19] . Até no campo científico, há cientistas correndo o perigo de tornar-se convictos de suas teses. Edgar Morin analisa que quando algumas idéias se tornam supervalorizadas e adquirem um caráter de grandiosidade e absolutismo tendem a levar os seus sujeitos a abdicarem de seu raciocínio crítico e se tornarem meros objetos dessas idéias. Indivíduos assim submetidos a tão grandes idéias, fazem qualquer coisa para “salva-las” de um possível furo de morte; elas funcionam como muleta existencial. Isso acontece principalmente no meio religioso, mas também pode ocorrer nos meios político, filosófico e científico.
O segundo sinal do fanatismo é quando alguém quer impor a todos de modo tirânico a “verdade” única extraída de sua inspiração ou crença absoluta. Pretende assim a uniformização via linguagem, através de aparência física, rituais e slogans do tipo: “O único Deus é Allah”, “só Cristo salva”, “Jesus Cristo é o Senhor”, “somos o Bem contra o Mal”, “Em nome do Senhor Jesus eu ordeno…” São expressões de caráter estereotipado, sustentado por uma “estrutura de alienação do saber” [20] , onde o discurso passa a falar sozinho, é uma resposta que está no gatilho, pronta para qualquer emergência que o sujeito não quer pensar. Observem o caráter tirânico, narcisista e excludente dessas afirmativas. Todos possuem uma visão que nega outros modos de crer e pensar. O mesmo acontece nos auto-elogios das pessoas de raça branca e o desprezo pelas outras como proclamam os fanáticos da extrema direita, nas ações violentas de uma torcida sobre a outra, todos, sinalizam que o indivíduo se rende ao grupo e este “a causa”. Os recém convertidos de qualquer seita religiosa ou política estão sempre convictos que, finalmente, contemplam a verdade e essa tem que ser imposta a todos, custe o que custar.
O terceiro indicativo de fanatismo, já dissemos, é quando uma pessoa passa a colocar uma causa suprema (podendo esta ser justa ou delirante) acima da vida dela e dos outros.
Quarto, quando um indivíduo e/ou grupo se isolam da convivência familiar e social e adotam um modo de vida narcísico [21] (no igual modo de vestir, de cortar ou não cortar o cabelo, no jeito de falar, nas regras de comer, na ritualística, etc), enfim, quando uniformizam seu discurso, gestos, postura, atitudes em geral e punem os que se recusam a seguir as regras impostas. Entrar para um grupo de fanáticos implica em renunciar: pai, mãe, os filhos, os amigos, o lugar onde viveu, o trabalho, enfim, os membros são persuadidos a matarem os vestígios simbólicos da vida anterior para fazer renascer a vida em outra base moral e de fé.
Quinto, quando o indivíduo e/ou grupo perdem o bom-senso na lógica da comunicação e nas ações do cotidiano. O discurso passa a ser repetitivo e estranho à vida comum.
O sexto indício de fanatismo é quando se perde o sentido de respeito e humanidade para com os diferentes, em nome de uma causa transcendente.



























