Pluralismo, religião e mídia

Segundo Peter Berger, a religião passa por uma crise das suas estruturas de plausibilidade,isto é, com o fim da metafísica, da escatologia e o advento da modernidade, foi tirada da religião a função de sustentar e explicar a realidade. A crise da religião é um dos efeitos claros da secularização, “o processo pelo qual setores da sociedade e da cultura são subtraídos à dominação das instituições e símbolos religiosos”[22]. Com o fim da função da religião como ordenadora do cosmos, entramos numa situação de pluralismo onde todas asinstituições podem explicar e fundamentar a realidade.

O pluralismo é uma situação objetiva, real, de algo que já aconteceu dentro do indivíduo, em sua consciência. Neste sentido a adesão à religião passa a ser voluntária, dependendo da escolha e da preferência do indivíduo e, por isso, é uma religião limitada à vida privada sem, com isso, desempenhar a tarefa anteriormente clássica de “construir um mundo comum no âmbito do qual toda vida social recebe um significado último que obriga a todos”[23].

Para conseguir a adesão de fiéis-clientes, a religião tem agora que usar da lógica da economia de mercado, pois o pluralismo é uma situação de mercado. As tradições religiosas podem ou não ser assumidas como comodidades de consumo. Além disso, as tradições religiosas têm que disputar a “definição da realidade com rivais socialmente poderosos e legalmente tolerados”[24].

Na situação de pluralismo as tradições religiosas são agências de mercado, elas sofrem uma pressão por resultados que provoca a racionalização das estruturas criando assim as suas burocracias. A burocracia se expande para as relações sociais internas (administração) e as relações sociais externas (instituições religiosas com instituições sociais) Ou seja, todas as relações sociais são burocratizadas para minimizar gastos (tempo, dinheiro) e maximizar os resultados, para poder se relacionar com a sociedade, o Estado e outras instituições e para executar métodos de trabalhos conjuntos. Continue lendo …

Por Luther Santana em 4 janeiro 2009 | 5 Comentários

Descrevendo a relação mídia e evangélicos

Freston[10] apresenta algumas justificativas para a relação entre os evangélicos e a mídia.Segundo o autor, os evangélicos têm por princípio religioso a divulgação de sua fé e isto deve acontecer por quaisquer meios de comunicação. Como conseqüência, sempre existe, entre os evangélicos, o desejo missionário do proselitismo que tem como característica principal a simplificação da mensagem para conversão de muitos. Além disso, com o crescimento dos evangélicos e a negação dos atrativos mundanos feita por eles, surgem condições culturais para uma socialização sectária através de discursos de variados tipos e produtos de bens simbólicos e materiais para dar sustentação à fé.

Alguns facilitadores contribuíram para o estreitamento da relação entre evangélicos e mídia nos últimos quarenta anos. Primeiro, em vinte anos a televisão se tornou o maior veículo de comunicação de massa do país; segundo, na década de 1970 os programas importados foram substituídos por programas nacionais em horário nobre; terceiro, a televisão brasileira nasceu aberta ao mercado; quarto, o aumento de evangélicos na população brasileira justificou uma mídia especializada voltada para este grupo; e, quinto, o fim do regime militar gerando uma abertura cultural-religiosa no país e abriram espaço para a entrada dos evangélicos[11].

O interesse crescente sobre a relação entre evangélicos e mídia se detém mais no uso que estes fazem da televisão. Com certeza, a televisão dá maior visibilidade a qualquer grupo.Porém, poucas são as denominações evangélicas[12] que possuem concessão de televisão. Para nós, estas formam o que chamamos de mídia denominacional (md), isto é, mídias que estão em função de alguma igreja específica, por exemplo, a IURD e a Internacional da Graça de Deus.

Há ainda as investidas de lideranças evangélicas nas emissoras comerciais com programas próprios, alguns auto-sustentáveis e outros que vivem de mantenedores alcançados pelo próprio programa. É o caso dos programas Vitória em Cristo do Pastor Silas Malafaia exibido na Rede TV aos sábados pela manhã, e outros com menos tempo na mesma emissora e em outras, exemplos que denominamos de Mídia de Lideranças Evangélicas (MLE), isto porque, apesar de todos os pastores e apresentadores que fazem esses programas estarem ligados a alguma denominação, exceto as que têm sua própria mídia, eles não fazem divulgação de suas denominações, mas de si mesmos e de suas igrejas.

Reconhecemos também os programas de igrejas autônomas[13]. Igrejas que têm se notabilizado por um grande aparato administrativo-empresarial e que investem muito em sua marca para conquistar fiéis. É o caso do Programa Diante do Trono, da Igreja Batista da Lagoinha em Belo Horizonte, também exibido na Rede TV no sábado de manhã e na Rede Super, canal 15 na parabólica. A estas iniciativas chamamos deMídia de Igrejas Autônomas (MIA). No entanto, como afirma o próprio Freston, o rádio domina a mídia evangélica ainda hoje, e os argumentos usados para esse domínio radiofônico são esclarecedores: “o custo mais acessível, a facilidade técnica da produção e a disponibilidade maior de horários”[14]. Ou seja, é ainda através do rádio que os evangélicos se inserem na comunicação de massa do Brasil.

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Por Lordelo em 27 dezembro 2008 | 1 Comentário

Um pouco da histórica relação entre mídia e evangélicos

O evangelicalismo [5], sobretudo o que aportou em terras brasileiras, tem como uma de suas marcas a Palavra escrita e falada, a Bíblia. A centralidade da Palavra sempre foi fundamental para esse tipo de culto onde todas as atitudes e decisões deviam fazer referência ao texto bíblico. Tal evangelicalismo foi e, em certa medida, ainda é marcado por um fundamentalismo característico de sua origem sulista norte-americana.[6]

Porém, há pelo menos duas décadas os evangélicos vêm despertando interesse de variados segmentos de nossa sociedade, principalmente da mídia, por estarem estes assumindo diferentes posições e investidas no campo religioso, entre elas: a) o surgimento da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) na década de 1980, sua inserção ressignificadora no campo religioso brasileiro e suas relações com a mídia; b) a atuação da bancada evangélica na constituinte de 1988 e conseqüente crescimento de políticos evangélicos nas mais variadas eleições do país; c) o crescimento dos evangélicos em paralelo com o declínio católico apontado nos censos do IBGE.[7]

Entendemos que o campo religioso brasileiro é bastante difuso com variados matizes e ideologias. Mais especificamente, o campo religioso evangélico é um caleidoscópio, em que igrejas são formadas, se dividem e se unem a outras construindo assim um tipo especial de protestantismo. Sendo assim, causa estranheza quando a mídia se refere aos evangélicos como se estes tivessem uma união programática e ideológica muito bem definida e articulada.

Alguns estudos mostram os primórdios da relação entre evangélicos e mídia[8]. A partir de 1940 surgiram no Brasil os primeiros programas evangélicos no rádio e as denominações pioneiras foram a Igreja Adventista, a primeira a alcançar o rádio a nível nacional, e algumas pentecostais como a Assembléia de Deus, a Igreja do Evangelho Quadrangular, O Brasil Para Cristo e a Igreja Deus é Amor. O modelo desses programas nos primeiros anos era norte-americano, e posteriormente, passaram a ser idealizados por brasileiros.

Um fato curioso aconteceu no Rio de Janeiro. Em fins da década de 1950 o missionário canadense Robert McAlister começou um programa de rádio (A voz da Nova Vida) que posteriormente deu origem à Igreja de Nova Vida em 1960. Na mesma década começaram acontecer os primeiros programas evangélicos na televisão. Esses programas eram locais, de curta duração e novamente, os adventistas saíram na frente com um programa primeiro em São Paulo e depois no Rio de Janeiro. Em meados da década de 1960, o missionário Robert McAlister da Igreja de Nova Vida iniciou seu programa na TV Tupi/Rio, sendo o primeiro pentecostal a ingressar na televisão. Outras iniciativas foram acontecendo ao longo da década de 1970, mas nada como a importação dos tele-evangelistas norte-americanos. Eram muitos os programas de TV evangélicos norte-americanos nesta década.Independente de denominações, tais programas se apoiavam no carisma de seus líderesque possuíam várias tendências teológicas e ideológicas. Essa iniciativa foi chamada de Igreja Eletrônica[9]. Programas como Alguém Ama Você de Rex Humbard, Clube 700 de Pat Robertson, e os cultos do Pastor Jimmy Swaggart eram transmitidos para todo território nacional.

Contudo, tais programas não surtiram o mesmo efeito que tinham nos Estados Unidos, ou seja, não tiveram aqui o poder de mobilização e pressão que exerciam entre os norteamericanos, entre outras coisas, porque eram produzidos em outra cultura, com outra perspectiva de vida diferente da dos brasileiros. Esses programas duraram até meados da década de 1980, quando a produção nacional de televisão cresceu e tornou-se independente da produção estrangeira.

Em 1989, quando várias denominações detinham concessões de rádios, a IURD adquiriu a Rede Record de Televisão se tornando a primeira denominação evangélica a ser proprietária de uma televisão com cobertura nacional. Os estudos supracitados enfatizam a repercussão deste fato.
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Por Luther Santana em 13 novembro 2008 | 7 Comentários

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